MIRAGEM

Eu vi que você compartilhou aquela ilustração criada por uma artista mineira. Tem aquela frase bonita, simples, quase cafona, que parece de um filme — daquelas que erroneamente atribuem de forma póstuma a tantos escritores. Também gostei. Parece que mexe com alguma lembrança em nós, como se estivesse cutucando um instinto adormecido. Algo assim. Vi a imagem de diversas cores. Vi sem cor também. Ah, eu vi em bordado. As palavras se espalharam, devem ter chegado a você por algum grande grupo ou apontadas por um grande artista. Soam fortes, convictas, mas eu perdi parte da semântica da coisa.  

Como todos, você fez um pacto para não soltar, é isso? Mas é quem está próximo de você ou, imaginando o lado simbólico da coisa, como se tivesse diversas mãos, todas as pessoas que você conhece? Preciso entender. Precisa fazer sentido antes que eu também adira ao movimento. Antes que eu me comprometa a segurar a mão mais próxima ou todas as mãos mais distantes, preciso saber o que estou assinando. Posso te tomar como exemplo? 

Estaria você, ainda, segurando minha mão? Ah sim, desculpe-me, claro que sim. Afinal, ninguém se solta, não? Então, sim. Hoje sonhei contigo, de novo. Dessa vez você apareceu em rosto original, completo, não vestido de outra pessoa. Passamos do olá, até. Trocamos notícias recentes como quem se dá a mão para atravessar a rua; como adolescentes perdidos de propósito pelo parque. Ah, sua forma de responder tem um gancho sedutor, parece uma mão sobre a calça, posta ali de propósito, esperando para ser apanhada. Mas assim, nessa fala sobre sonho, acho que desvio o assunto, perdão. 

Estamos de mãos dadas, ainda. Não sei se na interrogação ou na exclamação, mas, segundo a imagem, estamos. Assim somos mais fortes, é isso? A resistência se faz quando ninguém se abandona, sim, é isso. Então sua mão está lá mesmo quando eu não a sinto. Talvez no silêncio. Talvez na ausência. Sua mão, provavelmente, está lá mesmo quando minha mão parece tão ausente de companhia que formiga. Sua mão está ali, atrás do recado que some porque você deletou meu número.  

É que sou parte do grupo, do grupo e do grupo; minoria, minoria e minoria: não posso ser deixado para trás. Estou estampado nas imagens, nas ilustrações. Me evocam nos debates, lá nos palanques da escola e nos cartazes da rua. Então, é claro, todos estão segurando minha mão. Sinto esse calor de tantas mãos quando meu corpo treme diante do vento. O seu também, querido. O seu também. Você ainda segura minha mão quando responde depois de três dias. Você ainda segura minha mão nos dias em que não me chama para conversar porque não quer aquela transa intelectual estimulante que acredita que eu posso dar. Você ainda segura minha mão quando não me convida para passeios porque, reconheço, eu sou desagradável em mesa de bar. Você ainda segura minha mão quando não me chama para pular carnaval.  

Se aos finais de semana eu penso de outra forma, me corrijo, firmo meu corpo em outro pensamento. Repenso: há o direito para mudar de ideia e há o direito para não se permitir. Mas é que eu deveria sentir mais a pressão dessa sua mão, sabe? Queria sentir de forma mais definitiva a corpulência dessa teia de amparo e amor de vocês. Parece tão bela, tão conjunta, tão coletiva, tão, tão… Porque não sentir me faz questionar tanta coisa. Primeiro sem querer. Depois, querendo muito. Questionar de repente se sua mão ainda está por perto quando o convite é meu. Você ainda segura minha mão quando não é sincero? Você ainda segura minha mão quando desconversa? Ah, mas se ninguém solta a mão de ninguém, por que sinto como se ninguém segurasse a minha? 

Você está com medo. Eu estou com medo também. Mas eu tenho uma mão sobre a outra, pensando que esse medo sempre esteve aqui. Você não está segurando minha mão. Talvez não esteja segurando mão alguma, querido. Está apenas desesperado. Está tentando criar um laço através de palavras bonitas, meio cafonas, mas que nada significam. Se há mãos dadas, estão em ciranda, cuidando dos próprios membros da dança. Não chegou nada aqui. Não chegou ninguém até aqui. Não se permita o engano da imagem: nesse deserto de medo, é uma miragem.

 

Sallié Oliveira,

novembro de 2018

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NÃO CONVERSE COM LOBOS

“And I’d breathe the harsh night air to get to him my legionnaire”

My Legionnaire, Brooke Waggoner

 

Tenho conversado com João todos os dias. Mesmo agora que não me lembro mais de sua voz. Guardo as vozes de meus irmãos, de meus amigos, de meus bichos. A voz de João, não. Nós nos falamos ontem, pela manhã. Eu o expliquei a mecânica da coisa. Não vi seu rosto, seus poucos movimentos, mas senti seu silêncio, a indulgência de seu sorriso. Sua boca cheia, cobrindo dentes muito grandes, de gengivas que saltam quando sorri: isso, eu me lembro. Aberto como só um sorriso jovem sabe ser. Tenho me lembrado disso em uma loucura pouco atraente. Busco a voz, mesmo em sonhos, mas não consigo ultrapassar os vestígios de outros sons, acumulados entre sua voz e eu.

Despedi-me de suas fotos na tarde de sábado, quando desfiz as memórias em pedaços picados sobre minhas pernas. Sentado no desajeitado de sempre, lembrei-me de seu cabelo cheio, volume de árvore, muito próximo ao meu sexo, o que foi por muito tempo o centro das coisas de um mês esquecido. Colocou os ouvidos perdidos em uma calça escura e se deixou perceber um céu azul cínico, que não disfarçava muito bem o frio que nos acobertava. Essa foi a última vez, mesmo que para nós tenha parecido a primeira, de verdade, aquela que mudaria as coisas. Na conversa há pouco, sabíamos a derradeira hora de se perguntar e de se responder o que era necessário para se seguir. No dia da cabeça sobre a coxa, não.

Disse a João que a criança é largada na floresta escura, de árvores altas e barulhos ensurdecedores. A cada novo passo, o lugar se abre mais, mostra novos dentes e novas possibilidades. As árvores se repetem, os sinais se atrapalham e os bichos surgem e se escondem conforme a necessidade de cada um. Essas imagens, João, irão confundir suas memórias e te fazer esquecer de quando mirou o céu a partir do meu corpo. Com o tempo, vai olhar para o céu sem saber o que está tentando alcançar e se esquecer de meus dedos percorrendo o seu rosto. Esses ruídos, João, do bicho que ameaça e do bicho que tudo teme, irão se misturar às instruções que eu deixei contigo. Com o tempo, não se lembrará mais daquilo que eu permiti, daquilo que eu insinuei. Vai se fazer caça atrapalhada, caindo de propósito em sua corrida para ser apanhado. Ou vai se fazer de caçador tímido. Vai ganhar na sílaba colada na saliva. Dirá o que aprendeu; a resposta correta, o sim, o obrigado.

Falei que quando o coração chega e é a sua vez, o aparelho apita, faz muito barulho. Você precisa ir rápido. Essa é a dica para descobrir o caminho de pedrinhas brancas e adentrar a floresta de corte em transversal. É o meu chamado. Falei a João que a mecânica da coisa funciona como um feitiço. Ah, meu querido, não posso levá-lo a casas fantásticas por enquanto, oferecer-te todo o doce que puder devorar e olhar o pôr-do-sol do mais alto que alcançamos em nossa região. Há pouco recurso comigo. Quando caminho, procuro alguma forma de resistência nesses galhos. Meu querido, um dia voltamos para casa porque você descobriu o caminho. Você disse as coisas certas, apontou uma direção para nós. Eu, mais velho e mais medroso, fui atrás, duvidando de tudo, desacreditado de ter em ti algo para se seguir.

Dei-lhe o objeto no último sábado e expliquei a mecânica da coisa. Será como um rugido, e eu voltarei correndo, sujo da velocidade. Será como um farol ao longe, guiando o que há de resto em meu barco. Use a tecnologia mesmo com medo, mesmo duvidando de tudo. Não seja paralisado pela dúvida ou pelo medo. Será como o canto da minha espécie, manifestando-se em coro pela minha volta. Será como um abrigo que aparece ao longe em noite de chuva que barra todas as estradas.

E eu serei como a criança quieta que espera os acontecimentos depois do era uma vez. Eu serei como o paciente que não faz muito esforço, não se move tanto. Eu estarei pronto para colocar sua voz de volta nessa imagem que lhe tenho, despejando essência dentro deste vaso que conservo intacto. Não procure distração nos pássaros ou nos caminhos diversos. Não converse com lobos. Não colha flores. Grite o mais alto que puder. Manifeste-se pelo vermelho do sinal. Transforme-se no beep do fundo de meu bolso. A manifestação do desejo sem palavra humana. Venha em beep, João. Quando a saudade bater, pela manhã, na fila do pão. Venha no grito agudo, no pulsar contínuo do aviso. No beep, João. No beep.

 

Sallié Oliveira,

outubro de 2018.

 

 

POUCO TANTO TUDO NADA

Estar sozinho é minha palavra, minha palavra apenas. É som avassalador de moto que passa cortando a rua como tesoura. É dedo mindinho da mão esquerda na boca, brincando com a unha. É tempo que se fica no banheiro, com as luzes apagadas, antes de destrancar a porta e sair. É escuro que vai cobrindo a casa cômodo por cômodo. É pés que de repente se descobrem descalços, tocando o quase-frio do piso. É música ao longe. É inclinar o corpo pela janela de forma ousada e perigosa. É barulho do mouse dançando. Ah, tem este gosto. Este gosto de boca que devora o que tem em cima da língua, pelas bochechas, escondido na saliva. Tem este rebolado, essa forma de mexer o corpo. Tem este gesto que se levanta. É uma delícia, ah, pense bem, pense bem. Tem esse coração descompassado que é poético, bonito de se sentir, é um trem passando pelos pastos a toda velocidade. Ah, tem esta memória que une tudo. Cola quem não está com quem está e forma a mesma história. É estar com todos, sim. Não se mexa muito, não sinta muito, não sinta tudo.

Estar sozinho é canto do sofá muito grande. É conversar com o sexo. É balançar a garrafa e balançar a garrafa e balançar a garrafa até decidir fazer café. Ah, espera, tem esta melodia, esta forma de deixar as palavras no ar, o não dito num tom musical, sabe? Ah, espera, é essa dança não coreografada, de se descobrir dançarino, ah, sim, esses ombros, para lá e para cá, um de cada vez, vai e vem. É fechar os olhos e assim ficar. Tem esta respiração, esta inspiração, este puxão do ar, esta digestão. É tirar os óculos para não ver tudo o que está longe, o contorno da rua, as outras casas, os esboços de gentes andando à distância. É começar uma música pelo meio. É travesseiro entre as pernas. É planejar o dia de amanhã. É este céu: parece inventado, falso demais, fabuloso demais, convidativo a lápis e folha em branco demais. (Eu me lembro, é assim, mesmo, mesmo. Eu me lembro.)

Estar sozinho é virar a cabeça de repente. É ensaiar cena. É brincar de pensar com um controle só. É ir lembrando aos poucos dos quase amigos que se conhece, que se fez durante o ano, que provavelmente ainda não têm opinião a respeito. É querer de repente chocá-los. Coça desta forma, sabe? Lá no fundo. E é de uma frescura gostosa, que faz o pé mexer sozinho, os dedos se esticarem, se afastarem. É cueca preta no escuro, que gruda num corpo que o espelho diz bonito, ah que bonito. É calça jogada de propósito. É encarar o umbigo por um tempo, e virar-se, e virar-se, e encarar de novo. É teto que inventa rachadura. É uma manifestação de todas as outras coisas.

Estar sozinho é fazer promessa. Mas e se? Ah, e se? Com certeza se. É língua cobrindo o dente da frente, depois seu vizinho, depois seu vizinho, depois sumindo. É não querer levantar. É tomar este cafezinho morno, mesmo, acho que não tem mais. É fazer novas listas. É arrumar a bagunça do quarto. Pensar em caminhar amanhã, de manhã, antes de tudo. Saudade do suor e da falta de fôlego. Saudade do corpo tremendo. Das mãos inquietas pelo, pela. É inventar sotaque. É Clarice numa pausa muito sua. É cabeça no chão. Tapete macio.

Estar sozinho é uma lástima. Um incômodo. Um fracasso. É um acaso. É tentar dar consolo. Meu bem, você ainda tem a mim, estou aqui, vamos passar por essa juntos, corpo, vamos passar por esta juntos, alma. É insano. É histérico. É uma gargalhada acima de todos os barulhos que existem quando não há barulho algum. É preparar discurso que ninguém ouve. É festa de aniversário que ninguém vai. Balão que se estoura voluntariamente, sem que haja alguém por lá para se assustar com isso. É frio não-tão-frio por não ser compartilhado. É eco. É oco. É falha. É experiência no zero: nada, nada, nada.

Estar sozinho é querer inventar Deus como recurso.

Estar sozinho é lágrima quente. É verso cruel demais para ser seguido por outro. É ser criatura pequena abaixo de um trovão gigante. É coração que assusta. É mente que assusta. Bagunça, bagunça, bagunça. É semente podre de onde não sai fruto. É ter medo da abertura na parede da frente. Um tempo lento. Corpo arranhado. Sair em jornada pelo desconhecido. Ah, não, nada de bonito nisso. Uma pena. Um desperdício. Quando por pouco. Quando quase. Quando tanto. Quando tudo.

 

 

Sallié Oliveira

Outubro de 2018

VITRINE

Tava com os olhos grudados numa vitrine. Desapercebido numa graça de se ver. Tão distraído que não viu a dona moça, senhora, bom, se atrapalhou no dizer certo. Pediu desculpas nuns sons bem longes. Complicado de se saber se ela ouviu. A tal com um cachorro branco apertado carinhosamente em uma coleira vermelha. Não foi nada, disse alto em aparência alta. Queria é não ser atingida pelo ser miúdo.

Olhando a vitrine, sim senhor!, sem sequer pôr disfarce nisso. Mirando mesmo, nuns olhos absurdos, gulosos, quase ridículos. Tava vendo é a jaqueta por cima da roupa, por cima da pele do manequim. Manequim é feito de quê, hein? Do quê, sua pele? Não sabe. Não sei. Porém, a jaqueta marrom, sobre uma roupa toda combinada — isso sabe! Cor daquela, do outro homem, o menino moço de cabelo em pé que o deixou meio virado na hora do almoço. Reapareceu de repente, perna depois da perna, seguro como só um bicho homem tem a liberdade ser. Boca em formato de M, ah, isso se lembra. Gravou de cravar mesmo na cabeça. Era seu jeito de ter carinho ao futuro, dizendo: “ah, pois um dia um garoto bem assim vai me deixar suspenso no amor; e se não no amor, suspenso na vontade”. Eita futuro bom no imaginar. Um exercício de capricho que não deixava de lado, essencial quando tudo era transtorno de sol ou transtorno de chuva.

Decorou também o nome da loja, botado lá em cima, no alto, depois da vitrine. Umas letras engraçadas, misturadas, num modo de tentar a originalidade moderna, jovem. Duas palavras, escritas de muito próximo, a enganar desavisado na ideia de uma só. Pois não era. Ora que atrevimento aquele de pôr reparo em nome de loja, namorar manequim. Quem sabe? Talvez devesse dizer à amiga que esse tipo de roupa combinava, sim, consigo. Bastava que mudasse o jeito de caminhar, ficasse mais mole, menos disciplina no pra lá, pra cá, menos disso de gesto mudo. Combinava era nada com aquele marrom, visto antes na pele negra do garoto de cabelo em pé. O mesmo de orelha pequena, quase sem se perceber naquele corpo já pequeno, magrelo — bonito, há de se dizer! Tão bonito como todas as coisas pequenas são. A beleza do mínimo, sabe?

Nome agora sabia da loja, mas não do garoto. Há de se adivinhar. Um Pedro, explodindo no começo e remexendo a língua depois. Um Gustavo: de três sílabas, a segunda descendo num susto, montanha-russa do nome próprio. Um nome com L talvez. Amava tanto isso de L no nome, principalmente no meio, para lambuzar tudo, se deixar molhar, como a língua na lateral das bochechas, banho na pronúncia. Bonito era Elias: seguia as características e ainda terminava em abundância. Como saber ao certo? Ser sem-vergonha como no outro dia, apresentação em desculpa dizendo com licença, eu te conheço?  Pois claro que não! Se apresentar, falar que a primeira letra do nome não se pronuncia, rir um pouco, exibindo os grandes dentes amarelos de café. A amiga desaprovaria, diria ser demais, quase desesperador. A amiga não sabe que um rosto sem nome é tão desesperador quanto. Seria perdoado depois.

Há de se rir de seu plano de conquistar o mundo aprendendo um nome de cada vez. Desta certeza de que botar no rosto a informação do gesto, do passe e por último da palavra é a razão-raiz do contato. Não lhe basta apenas o conhecimento do alheio, mas digerir o conhecimento no processo de digerir o grande outro — ou gerir o outro, na verdade. Gargalhar num deboche muito acentuado de seus verbos saltados de uma boca que muito se abre para existir. Ah, não, não para o ato da comida subir do prato para o alto, na-na-ni-na, mas para ser. Gostava de ser a partir da boca. Se o menino de traje marrom, coroa de um jeans escuro, viesse marchando para seu lado, ouviria o que tem a dizer não com o ouvido aberto, mas com a boca aberta. Um pouco só, ó-b-vi-o. Nada de causar susto superficial — susto de aparência.

Quando se conjuga o adquirir em uma loja como aquela, qual a frase que se usa? Por favor, eu gostaria de saber se vocês possuem um calçado que combine com a roupa. Dito bem devagar, pronúncia bonita, civilizada. Verdade é que demonstrar educação dá trabalho. O que se há de fazer? O marrom casa com o sujeito de fino trato, o do boa tarde, com sua devida licença. Devida, sim. Sujeito de fino trato sempre deve algo a alguém: a comprovação; o retorno; a espelhagem. No final da interação: agradeço. De fazer o agrado descer sobre o vendedor. Falar é uma colagem sem fim. Resposta é o sorriso do vendedor de comissão tocada, estado de alerta ao endinheirado, empapado. Enquanto o solícito moço-vendedor na ida e na volta, fica-se sentado na paz da mente massageada, o conforto de uma quase importância, grau superior de quem não vai à montanha. Teria tido isso só para saborear o que já estava delicioso. A amiga entenderia, vive se engraçando pelo centro nessa brincadeira de consumo. Mostra coisas sempre novas pela internet, fotos de seu celular vermelho, tecnologia pura. Bora dizer a verdade? Uma invejinha até dava. Coisa minúscula, nem dá para botar reparo.

O povo do ônibus, encolhido em roupas escuras, destacava seu azul. Todo de azul, como sempre. Sentou no lado da janela, aquela verdadeira vitrine de rostos cansados. Lembrou-se da vitrine de antes, aquela brilhosa, de luzes sobre roupas caras. Há de se vestir assim no depois, quando acumular mais moedas. O menino por perto terá olho arregalado, quase grudado nessa posição. A amiga também vai dizer coisa muita, exclamação por trás de tudo. Espere só e verá! Ele também, indo de ponto em ponto até sua casa. Vendo na roupa dos outros aquela que há de ser sua. Semelhança de gostos talvez. Todo mundo vestindo as mesmas coisas — trajes, óculos, bolsas, peles. Objetos e massas ajeitadas sobre a vitrine de um esqueleto que não se sabe temporário no grande achado do acaso, vida esta que é a nossa.

 

Sallié Oliveira,

Agosto de 2018

NAQUELA TARDE

Na tarde em que você passou longe, fiquei pelo seu quintal, assistindo à vida insignificante das coisas. Ausente, estava pelo Centro, resolvendo questões de última hora. Mais cedo, antes da xícara de café que dividimos, ouvi seus sussurros pela janela, acima da cama, confessando às amigas que não me amava. Apareceram de repente, apressadas em descobrir quem era o visitante de longe, que atravessara estados para te ver. Compartilharam sua gargalhada, a anedota contada no mais baixo da voz, usando meu nome. Naquela-esta tarde, sua mãe e eu conversamos.

Sentou-se a meu lado, gigante, mas diminuída de um medo irrazoável de me incomodar. Lembro-me dela quando fechou a porta de seu quarto e nos deixou sozinhos, para o amor e a guerra dos que se reduzem a dois. Estávamos somente os três naquela grande casa, espaço o bastante para a perdição do corpo, mas ela insistia em nos dar privacidade mesmo em seus gestos. Tudo contido, silêncio pelo braço e pela perna. Fazendo-se mulher pequena para que os dois jovens, seu filho e o estranho, pudessem sonhar com outra vida, das mimadas crianças dos bairros ricos e seus apartamentos no mais alto de lá.

Ela falou muito. Contou-me sua vida sem censurar o rancor de tudo. Falou de você, de seu irmão e das outras personagens que compuseram sua trajetória. E que jornada me forneceu como narrativa! Era dor e mais dor, mesmo quando tocava na ferida de maneira indireta, através de um terceiro corpo — feito nós todos com gravetos. Senti-me confortável naquele momento. Possuía algumas moedas no bolso, dinheiro para gastar no final de semana, então fui abraçado pelo atrevimento daqueles que têm os bolos cheios. Não me encolhi na cadeira.

Falou-me da praia ali perto, do caminho para o mar que pode ser feito andando, de pés descalços. Sempre naquela voz que não se alegra, não tenta entusiasmar o interlocutor com interjeições. Em sentimentos, sua mãe era síntese. Ofereceu-me mais café enquanto tirava outros bons contos das costas e recomeçava sua fala. Ajeitava-se de vez em quando, achando o próprio corpo impróprio. Sofrimento aqui e ali, seja físico, seja não físico talvez. Frases certeiras, dessas de comover plateia, também não eram de pronúncia fácil. Depois de soltar, assustava-se do acontecido, raciocinava sobre o ocorrido. Seria tão horrível quanto se lembrava?

Trocamos conselhos e broncas em consenso sobre muita coisa. Falou-me dos garotos que têm te visitado. Disse muito de quem se ajeita sobre as folhas de seu quintal, quem se remexe no calor de sua cama. Caridosas informações forneceu-me para desenhá-lo inteiro, entender mais algo. Gosta de ir ao mar sozinho, desacompanhado. Às vezes chega à casa molhado, sal sobre o corpo. Seu bronzeado adiantou-me a curiosidade, mas gostei de ouvir os motivos por trás. Na voz dela, os anos regrediam e você novamente se tornava a criança imaginativa.

Naquela tarde, recorte de uma distância percorrida no esquecimento, sua mãe e eu conversamos sobre as injustiças das coisas. Concordamos, balanços de cabeças cansadas, como duas pessoas nos últimos passos. Ela se ressentia de tudo passado,  eu, de tudo o que viria. Vestido de roupas pesadas, percorri o resto da casa com ela. Oculto em sua sombra, o veredicto da confissão mútua. Logo depois, você chegou, sorriso espalhado pelo rosto, lembrando-se do convidado. Contou-me seu dia, suas tarefas importantes. Satisfiz-me com o relato, não compartilhei meu lado. Decidi pelo segredo, sentindo desde então uma saudade pela zona neutra, encontrada distante de meu ninho, perto do mar, dividida com alguém que sonhara e perdera tanto. Saudade deste instante do ser adulto se percebendo como tal. Saudade de sua mãe.

 

Sallié Oliveira,

agosto de 2018