O TRATOR

Disseram que eu teria que arrumar gentes. Mulheres firmes como rochas, impenetráveis, forças em águas não brandas. Homens selvagens, cavalos correndo pela noite, trovões em madrugadas silenciosas. Teria que arrumar olhos para compor um coral e ouvidos para guardar meus passos. Teria que arrumar braços para levantar pontes entre o antes e o depois e pernas para me esconderem em presente grego. Teria que juntar pessoas cujas letras contivessem os mesmos símbolos que as minhas. Teria que decupar a multidão até que somente eu, ou aquilo razoavelmente diferente de mim, estivesse à vista.

Disseram que eu teria que formar um grupo. Colocar gentes na sala, gentes pela cozinha, levar gentes ao quarto. Deveria colocar gentes sobre o travesseiro para poder conversar sobre o dia, refazer o trabalho e o transporte, a escola e as refeições. Deveria colocar gentes molhadas embaixo de chuveiros quentes para abraçar em dias frios e ficar todo aberto, na esperança de que o beijo não afogue. Deveria colocar gentes eretas sobre o sofá, de olhos abertos para filmes intelectuais, desses de discutir a vida toda, desses de repartir o coração todo, desses de abrir a alma ao mundo em ignorante inocência. Deveria juntar mais de um se o assunto fosse sério. Deveria ficar apenas com um se o assunto fosse muito sério.

A orientação de berço foi que eu nunca caçasse só. Compusesse uma carruagem de sorrisos quando a caça for em festa e compusesse uma marcha de elogios quando a caça for à distância. Quando a felicidade for o alvo, enfileire suas gentes ao alcance. Fale a cada um o que ele deseja ouvir da forma mais agradável que puder. Quando o amor for o alvo, deixe-se estar ao alcance. Mas não se distraia por essa barulhada de cavalos patrulhando a noite. Não fique muito assustado quando os animais invadirem seus sonhos, cobrando-lhe que os escreva forte em carvão sobre a pedra. Se o amor for grande, esconda-se dos outros bichos. Se o amor for muito grande, arrume mais gentes para superar.

Disseram que eu teria que levar para passear essa gente toda. Aos bares nos quais outras gentes esperariam para um jogo de observação e concessão. Encontraria essas gentes de plateia no teatro para que nós, como um grupo, combinássemos de ficar em silêncio por horas — rompendo na gargalhada quando possível. Nós beberíamos de um jeito confuso, alterando a voz do sem som para o alto grito. Entre essas gentes, eu encontraria quem pudesse me magoar como a ferida que atesta um corpo vivo. Entre essas gentes, eu formaria subgrupos para provar que há sempre outro degrau para descer na busca pelo submundo da intimidade. Nós cavaríamos história e dividiríamos fatos sobre outras gentes ou sobre as gentes que éramos quando não essas mesmas de então.

Disseram que eu teria que arranjar gentes. Para ser feliz. Porque as gentes vibrariam a felicidade que sozinho eu não encontraria em mim. As gentes lembrar-me-iam o tempo todo do ciclo diário de se cumprimentar e se despedir e de ir e voltar e de caminhar e esperar e de formar filas. As gentes me enriqueceriam: me ensinariam palavras, me dariam histórias, me deixariam homem mais homem e adulto mais adulto. Sem gentes, eu não poderia me arriscar pelo mundo, pois a pele ainda estaria sensível demais. Precisaria do bem dessas gentes e do mal dessas gentes para amadurecer as ideias da vida.

Eu arrumei essas gentes; colecionei essas gentes. Coloquei gentes sobre a perna, coloquei gentes entre os dedos. Coloquei gentes acima do cabelo. Coloquei gentes pela cara. Coloquei gentes dentro da roupa. Coloquei gentes na parede. Coloquei gentes no tapete da sala. Coloquei gentes à louça. Coloquei gentes nos guarda-roupas. Coloquei gentes ao lado nas calçadas e ao lado nos carros e também nas carteiras ao lado e também nos restaurantes caros e também nas dançantes festas. Coloquei gentes nos meus textos. Coloquei gentes nas minhas fotografias. Coloquei gentes nas minhas memórias.

E as gentes passaram como trator sobre meu corpo e curvaram minha coluna e me ajoelharam diante de mim mesmo e comeram da minha estima e riscaram e riscaram as minhas costas. As gentes passaram e as gentes não ficaram e as gentes não me mostraram como era isso de ser feliz como era isso de estar feliz como era isso ou aquilo as gentes não me mostraram nada.

 

(Sallié Oliveira, abril de 2019.)

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ITÁLIA OU ESPANHA

Esteve fora. Não ruas depois, como de costume. Lá, naquela casa apontada na pressa da despedida, naquele dia em que tudo parecia possível. Esteve fora de nossas linhas brasileiras, o contorno de nossos estados, nossas limitações. Respirou, lá fora, de nossa política, esqueceu por um momento como a vogal pesa sobre a consoante quando exercitamos o nosso verbo. Fugiu da nossa programação, de nossos intervalos comerciais, dos anúncios funestos que compartilhamos entre nós nesses últimos dias. Posou diante de monumentos históricos, lembranças de guerras. Levantou a câmera bem alto e sorriu fraco, tímido entre desconhecidos. Foi à Itália ou à Espanha. Não me recordo exatamente. Um desses países no mar de países da Europa, é certo.

Esteve no conforto de um avião que lhe veio como resgate. Foi tirado de nosso chão como quem precisa ser salvo. Entregou-se, então, aos braços do ar na esperança de que a volta se adiasse até o último instante do permitido. Pisou em outras calçadas, mastigou outros ditados, olhou em olhos que não os nossos… Prédios históricos o receberam na mesma pressa que ele queria, certa noite, que meu corpo o recebesse. Seu corpo pequeno, desenhado em curvas, rebolou seu andar característico pelas metrópoles de lá. Fez amizade, conquistou na simpatia educada deste bairro que a mim ainda se mostra desconhecido. Usou dos trajes bem comprados para se ver tão belo aos outros quanto os outros, cidadãos do lugar, eram belos para si. Desejou a todo custo que pudesse desaparecer entre eles, confundido nos mesmos olhos, na mesma maneira de caminhar.

Esteve sustentado em comida quente, porque lá o frio sopra sobre pratos de porcelana em restaurantes bem frequentados. Sorriu das combinações diferentes, comida essa com comida aquela, que já sabia na teoria, mas que no cardápio parecem cômicas demais, inacreditáveis demais. Em alguns ambientes, escutou as músicas deles, seus ritmos. O nosso não esteve presente, e a diferença arranhou mais um estímulo de sorriso. Tudo era música para seus ouvidos cansados de nossos sons. Tudo era dança diante de sua aguçada visão, faminta pelo diferente, pela vida vivida em modos outros. Esteve faminto dessa vida.

Esteve acordado de outra forma. Nossa forma de acordar é o susto. A forma que ele encontrou é através da comodidade: lá tudo funciona. Experimentou o transporte público, desejando que pudesse levar esses trens e esses ônibus de volta, escondidos na bagagem. Desejou que fosse recolhido no aeroporto com os mandantes deste lar hostil, do qual fugira, para que ele se tornasse o responsável por reorganizar as coisas e deixar tudo por aqui como tudo é por lá. Construiria sinais, mudaria as regras, garantiria o funcionamento adequado para o que deveria ter funcionamento adequado. Esteve olhando por uma janela que não é nossa. As paisagens cresciam através do vidro como inventadas, televisão dos olhos, ficção no fundo verde. Era inacreditável no instante, mas era também no seguinte e no seguinte. Esteve deslumbrado.

Esteve sentindo amor pelas pessoas — um amor saudável, um amor da distância. O corpo distante, na fala distante, pedia-lhe amor, e ele dava sem muito pensar. Ah, como era fácil amar o que nunca se aproximava muito. No agito moderado dos bares, nas padarias vazias, perfumadas de segredos misteriosos aos nossos padeiros, ele via o indivíduo movido para longe por um braço, às vezes dois. Era bonito não tocar. Era bonito cumprimentar sem enroscar-se. Esteve satisfeito na falta, na ausência. Colocaria isso em prática quando voltasse. Diria aos amigos que há prazer no amor comedido, nesse constante suspense sobre uma entrega total que nunca chega. Esteve fazendo planos.

Esteve namorando ideias. Muitas. Uma delas, exponho: a de não voltar. Ah, se não precisasse. Ah, se a vida fosse outra; o pai, outro; a mãe, outra. Se a latitude e a longitude de seu berço não tivessem registrado a América Latina como referência; talvez assim. Ficaria por lá, empreendendo de um modo diferente. Ele, que esteve estudando História, não se voltaria à nossa com tanta pressa. Estudaria o passado da Itália (ou da Espanha) com a devoção de um sacerdote convicto. Reuniria na estante as novas e as velhas edições, de autores inimigos, historiadores contraditórios, alguns mais esquisitos. Lá, seria um deles, não um dos nossos. Não saberia muito sobre nós. Não teria sequer interesse. Abençoaria nosso destino com muita pena, morador de vila rica que manifesta um generoso desdém ao outro lado do oceano.

Esteve lá fora. Esteve distante. Quilômetro depois de quilômetro, chegou ao mar. Quilômetro depois de quilômetro, atravessou o oceano. Esteve longe. Esteve onde meu pensamento não alcança. Não na outra rua, onde lhe consigo imaginar deitado, no escuro, segurando uma luz, descuidado. Esteve no exterior. Fez o retrocesso, quilômetro depois de quilômetro, porque é inevitável que a frase não se complete quando a primeira palavra é dita, assim como é inevitável que letra depois de letra não tenhamos uma palavra. Agora, não mais entre eles, mas acomodado entre nossos corpos vagantes, volta a si. Agora, tendo a fuga caçada pelo tempo, não tem mais as estátuas para lhe distrair dos pensamentos, daquela dor sobre a qual tanto me falou. Agora, desce a rua desajeitado, no andar típico de si, no rebolado de quem abandona, e me fita do outro lado, careta esquisita, talvez estrangeira, questionando-se se está mesmo encarando a mim, antes de virar a esquina e desaparecer.

 

Sallié Oliveira

 Fevereiro de 2019

MIRAGEM

Eu vi que você compartilhou aquela ilustração criada por uma artista mineira. Tem aquela frase bonita, simples, quase cafona, que parece de um filme — daquelas que erroneamente atribuem de forma póstuma a tantos escritores. Também gostei. Parece que mexe com alguma lembrança em nós, como se estivesse cutucando um instinto adormecido. Algo assim. Vi a imagem de diversas cores. Vi sem cor também. Ah, eu vi em bordado. As palavras se espalharam, devem ter chegado a você por algum grande grupo ou apontadas por um grande artista. Soam fortes, convictas, mas eu perdi parte da semântica da coisa.  

Como todos, você fez um pacto para não soltar, é isso? Mas é quem está próximo de você ou, imaginando o lado simbólico da coisa, como se tivesse diversas mãos, todas as pessoas que você conhece? Preciso entender. Precisa fazer sentido antes que eu também adira ao movimento. Antes que eu me comprometa a segurar a mão mais próxima ou todas as mãos mais distantes, preciso saber o que estou assinando. Posso te tomar como exemplo? 

Estaria você, ainda, segurando minha mão? Ah sim, desculpe-me, claro que sim. Afinal, ninguém se solta, não? Então, sim. Hoje sonhei contigo, de novo. Dessa vez você apareceu em rosto original, completo, não vestido de outra pessoa. Passamos do olá, até. Trocamos notícias recentes como quem se dá a mão para atravessar a rua; como adolescentes perdidos de propósito pelo parque. Ah, sua forma de responder tem um gancho sedutor, parece uma mão sobre a calça, posta ali de propósito, esperando para ser apanhada. Mas assim, nessa fala sobre sonho, acho que desvio o assunto, perdão. 

Estamos de mãos dadas, ainda. Não sei se na interrogação ou na exclamação, mas, segundo a imagem, estamos. Assim somos mais fortes, é isso? A resistência se faz quando ninguém se abandona, sim, é isso. Então sua mão está lá mesmo quando eu não a sinto. Talvez no silêncio. Talvez na ausência. Sua mão, provavelmente, está lá mesmo quando minha mão parece tão ausente de companhia que formiga. Sua mão está ali, atrás do recado que some porque você deletou meu número.  

É que sou parte do grupo, do grupo e do grupo; minoria, minoria e minoria: não posso ser deixado para trás. Estou estampado nas imagens, nas ilustrações. Me evocam nos debates, lá nos palanques da escola e nos cartazes da rua. Então, é claro, todos estão segurando minha mão. Sinto esse calor de tantas mãos quando meu corpo treme diante do vento. O seu também, querido. O seu também. Você ainda segura minha mão quando responde depois de três dias. Você ainda segura minha mão nos dias em que não me chama para conversar porque não quer aquela transa intelectual estimulante que acredita que eu posso dar. Você ainda segura minha mão quando não me convida para passeios porque, reconheço, eu sou desagradável em mesa de bar. Você ainda segura minha mão quando não me chama para pular carnaval.  

Se aos finais de semana eu penso de outra forma, me corrijo, firmo meu corpo em outro pensamento. Repenso: há o direito para mudar de ideia e há o direito para não se permitir. Mas é que eu deveria sentir mais a pressão dessa sua mão, sabe? Queria sentir de forma mais definitiva a corpulência dessa teia de amparo e amor de vocês. Parece tão bela, tão conjunta, tão coletiva, tão, tão… Porque não sentir me faz questionar tanta coisa. Primeiro sem querer. Depois, querendo muito. Questionar de repente se sua mão ainda está por perto quando o convite é meu. Você ainda segura minha mão quando não é sincero? Você ainda segura minha mão quando desconversa? Ah, mas se ninguém solta a mão de ninguém, por que sinto como se ninguém segurasse a minha? 

Você está com medo. Eu estou com medo também. Mas eu tenho uma mão sobre a outra, pensando que esse medo sempre esteve aqui. Você não está segurando minha mão. Talvez não esteja segurando mão alguma, querido. Está apenas desesperado. Está tentando criar um laço através de palavras bonitas, meio cafonas, mas que nada significam. Se há mãos dadas, estão em ciranda, cuidando dos próprios membros da dança. Não chegou nada aqui. Não chegou ninguém até aqui. Não se permita o engano da imagem: nesse deserto de medo, é uma miragem.

 

Sallié Oliveira,

novembro de 2018

NÃO CONVERSE COM LOBOS

“And I’d breathe the harsh night air to get to him my legionnaire”

My Legionnaire, Brooke Waggoner

 

Tenho conversado com João todos os dias. Mesmo agora que não me lembro mais de sua voz. Guardo as vozes de meus irmãos, de meus amigos, de meus bichos. A voz de João, não. Nós nos falamos ontem, pela manhã. Eu o expliquei a mecânica da coisa. Não vi seu rosto, seus poucos movimentos, mas senti seu silêncio, a indulgência de seu sorriso. Sua boca cheia, cobrindo dentes muito grandes, de gengivas que saltam quando sorri: isso, eu me lembro. Aberto como só um sorriso jovem sabe ser. Tenho me lembrado disso em uma loucura pouco atraente. Busco a voz, mesmo em sonhos, mas não consigo ultrapassar os vestígios de outros sons, acumulados entre sua voz e eu.

Despedi-me de suas fotos na tarde de sábado, quando desfiz as memórias em pedaços picados sobre minhas pernas. Sentado no desajeitado de sempre, lembrei-me de seu cabelo cheio, volume de árvore, muito próximo ao meu sexo, o que foi por muito tempo o centro das coisas de um mês esquecido. Colocou os ouvidos perdidos em uma calça escura e se deixou perceber um céu azul cínico, que não disfarçava muito bem o frio que nos acobertava. Essa foi a última vez, mesmo que para nós tenha parecido a primeira, de verdade, aquela que mudaria as coisas. Na conversa há pouco, sabíamos a derradeira hora de se perguntar e de se responder o que era necessário para se seguir. No dia da cabeça sobre a coxa, não.

Disse a João que a criança é largada na floresta escura, de árvores altas e barulhos ensurdecedores. A cada novo passo, o lugar se abre mais, mostra novos dentes e novas possibilidades. As árvores se repetem, os sinais se atrapalham e os bichos surgem e se escondem conforme a necessidade de cada um. Essas imagens, João, irão confundir suas memórias e te fazer esquecer de quando mirou o céu a partir do meu corpo. Com o tempo, vai olhar para o céu sem saber o que está tentando alcançar e se esquecer de meus dedos percorrendo o seu rosto. Esses ruídos, João, do bicho que ameaça e do bicho que tudo teme, irão se misturar às instruções que eu deixei contigo. Com o tempo, não se lembrará mais daquilo que eu permiti, daquilo que eu insinuei. Vai se fazer caça atrapalhada, caindo de propósito em sua corrida para ser apanhado. Ou vai se fazer de caçador tímido. Vai ganhar na sílaba colada na saliva. Dirá o que aprendeu; a resposta correta, o sim, o obrigado.

Falei que quando o coração chega e é a sua vez, o aparelho apita, faz muito barulho. Você precisa ir rápido. Essa é a dica para descobrir o caminho de pedrinhas brancas e adentrar a floresta de corte em transversal. É o meu chamado. Falei a João que a mecânica da coisa funciona como um feitiço. Ah, meu querido, não posso levá-lo a casas fantásticas por enquanto, oferecer-te todo o doce que puder devorar e olhar o pôr-do-sol do mais alto que alcançamos em nossa região. Há pouco recurso comigo. Quando caminho, procuro alguma forma de resistência nesses galhos. Meu querido, um dia voltamos para casa porque você descobriu o caminho. Você disse as coisas certas, apontou uma direção para nós. Eu, mais velho e mais medroso, fui atrás, duvidando de tudo, desacreditado de ter em ti algo para se seguir.

Dei-lhe o objeto no último sábado e expliquei a mecânica da coisa. Será como um rugido, e eu voltarei correndo, sujo da velocidade. Será como um farol ao longe, guiando o que há de resto em meu barco. Use a tecnologia mesmo com medo, mesmo duvidando de tudo. Não seja paralisado pela dúvida ou pelo medo. Será como o canto da minha espécie, manifestando-se em coro pela minha volta. Será como um abrigo que aparece ao longe em noite de chuva que barra todas as estradas.

E eu serei como a criança quieta que espera os acontecimentos depois do era uma vez. Eu serei como o paciente que não faz muito esforço, não se move tanto. Eu estarei pronto para colocar sua voz de volta nessa imagem que lhe tenho, despejando essência dentro deste vaso que conservo intacto. Não procure distração nos pássaros ou nos caminhos diversos. Não converse com lobos. Não colha flores. Grite o mais alto que puder. Manifeste-se pelo vermelho do sinal. Transforme-se no beep do fundo de meu bolso. A manifestação do desejo sem palavra humana. Venha em beep, João. Quando a saudade bater, pela manhã, na fila do pão. Venha no grito agudo, no pulsar contínuo do aviso. No beep, João. No beep.

 

Sallié Oliveira,

outubro de 2018.

 

 

POUCO TANTO TUDO NADA

Estar sozinho é minha palavra, minha palavra apenas. É som avassalador de moto que passa cortando a rua como tesoura. É dedo mindinho da mão esquerda na boca, brincando com a unha. É tempo que se fica no banheiro, com as luzes apagadas, antes de destrancar a porta e sair. É escuro que vai cobrindo a casa cômodo por cômodo. É pés que de repente se descobrem descalços, tocando o quase-frio do piso. É música ao longe. É inclinar o corpo pela janela de forma ousada e perigosa. É barulho do mouse dançando. Ah, tem este gosto. Este gosto de boca que devora o que tem em cima da língua, pelas bochechas, escondido na saliva. Tem este rebolado, essa forma de mexer o corpo. Tem este gesto que se levanta. É uma delícia, ah, pense bem, pense bem. Tem esse coração descompassado que é poético, bonito de se sentir, é um trem passando pelos pastos a toda velocidade. Ah, tem esta memória que une tudo. Cola quem não está com quem está e forma a mesma história. É estar com todos, sim. Não se mexa muito, não sinta muito, não sinta tudo.

Estar sozinho é canto do sofá muito grande. É conversar com o sexo. É balançar a garrafa e balançar a garrafa e balançar a garrafa até decidir fazer café. Ah, espera, tem esta melodia, esta forma de deixar as palavras no ar, o não dito num tom musical, sabe? Ah, espera, é essa dança não coreografada, de se descobrir dançarino, ah, sim, esses ombros, para lá e para cá, um de cada vez, vai e vem. É fechar os olhos e assim ficar. Tem esta respiração, esta inspiração, este puxão do ar, esta digestão. É tirar os óculos para não ver tudo o que está longe, o contorno da rua, as outras casas, os esboços de gentes andando à distância. É começar uma música pelo meio. É travesseiro entre as pernas. É planejar o dia de amanhã. É este céu: parece inventado, falso demais, fabuloso demais, convidativo a lápis e folha em branco demais. (Eu me lembro, é assim, mesmo, mesmo. Eu me lembro.)

Estar sozinho é virar a cabeça de repente. É ensaiar cena. É brincar de pensar com um controle só. É ir lembrando aos poucos dos quase amigos que se conhece, que se fez durante o ano, que provavelmente ainda não têm opinião a respeito. É querer de repente chocá-los. Coça desta forma, sabe? Lá no fundo. E é de uma frescura gostosa, que faz o pé mexer sozinho, os dedos se esticarem, se afastarem. É cueca preta no escuro, que gruda num corpo que o espelho diz bonito, ah que bonito. É calça jogada de propósito. É encarar o umbigo por um tempo, e virar-se, e virar-se, e encarar de novo. É teto que inventa rachadura. É uma manifestação de todas as outras coisas.

Estar sozinho é fazer promessa. Mas e se? Ah, e se? Com certeza se. É língua cobrindo o dente da frente, depois seu vizinho, depois seu vizinho, depois sumindo. É não querer levantar. É tomar este cafezinho morno, mesmo, acho que não tem mais. É fazer novas listas. É arrumar a bagunça do quarto. Pensar em caminhar amanhã, de manhã, antes de tudo. Saudade do suor e da falta de fôlego. Saudade do corpo tremendo. Das mãos inquietas pelo, pela. É inventar sotaque. É Clarice numa pausa muito sua. É cabeça no chão. Tapete macio.

Estar sozinho é uma lástima. Um incômodo. Um fracasso. É um acaso. É tentar dar consolo. Meu bem, você ainda tem a mim, estou aqui, vamos passar por essa juntos, corpo, vamos passar por esta juntos, alma. É insano. É histérico. É uma gargalhada acima de todos os barulhos que existem quando não há barulho algum. É preparar discurso que ninguém ouve. É festa de aniversário que ninguém vai. Balão que se estoura voluntariamente, sem que haja alguém por lá para se assustar com isso. É frio não-tão-frio por não ser compartilhado. É eco. É oco. É falha. É experiência no zero: nada, nada, nada.

Estar sozinho é querer inventar Deus como recurso.

Estar sozinho é lágrima quente. É verso cruel demais para ser seguido por outro. É ser criatura pequena abaixo de um trovão gigante. É coração que assusta. É mente que assusta. Bagunça, bagunça, bagunça. É semente podre de onde não sai fruto. É ter medo da abertura na parede da frente. Um tempo lento. Corpo arranhado. Sair em jornada pelo desconhecido. Ah, não, nada de bonito nisso. Uma pena. Um desperdício. Quando por pouco. Quando quase. Quando tanto. Quando tudo.

 

 

Sallié Oliveira

Outubro de 2018